Saúde

Atenção: a covid pode ser confundida com a dengue em crianças. E vice-versa





Quando o mosquito Aedes aegyti sobrevoa uma terra dominada pelo novo coronavírus é confusão na certa. No mínimo porque os sintomas iniciais da dengue, cujo vírus é transmitido por sua picada, podem se confundir com os sinais que levantariam a suspeita da covid-19.

Existe também o caminho inverso: enquanto os médicos esperam os resultados de testes para confirmar se é covid-19 mesmo ou não, sem nem sequer cogitarem a dengue, esta outra condição pode se agravar perigosamente. E a lógica diz que esse emaranhado, conduzindo o olhar do diagnóstico na direção errada, pode ser mais frequente em crianças e adolescentes.

É o infectologista André Cotia, do Hospital Infantil Sabará, em São Paulo, quem me explica a razão: "Embora seja uma arbovirose, isto é, uma infeccção passada por insetos, causada por um flavivirus que aparenta ser bem diferente de um coronavírus, no final das contas dengue e covid-19 acabam se manifestando de maneiras bem similares", diz ele. "Ambas provocam dores de cabeça, deixam os músculos doloridos também, levam à prostração e desencadeiam diarreias", diz ele.

Isso, aliás, poderia valer para qualquer idade. O grande diferencial para se desconfiar de uma covid seriam os sintomas respiratórios. Os mais comuns, no caso, seriam coriza, dor de garganta, tosse e falta de ar. Mas aí é que está o desafio.

"A criança manifestar sintomas mais expressivos da infecção pelo coronavírus é algo realmente muito mais raro em comparação com adultos", diz André Cotia. "Só que, quando isso acontece, mais de 30% dos meninos e das meninas chegam nos serviços de saúde e nem sequer tosse têm."

Segundo o doutor, no lugar disso, eles sentem uma dor abdominal forte, ficam com o estômago embrulhado e com o intestino solto. Claro, podem apresentar febre. Daí, se há um surto de dengue na região, o pediatra às vezes desconfia de que deva ser isso. Até mesmo começa a pensar em outras doenças intestinais ou, ainda, em infecções urinárias que também podem causar bastante dor na região abdômen

Uma vez reidratada, essa criança costuma voltar para casa com as orientações para repor os líquidos perdidos pela dor de barriga até ficar boa. Quando, na realidade, se não ficar devidamente isolada, ela estará espalhando o novo coronavírus, que passou incólume, ofuscado pela dor de barriga.

Por outro lado, entre 15% e 20% da criançada com dengue terminam com uma tosse chatinha e seca, talvez antes mesmo de qualquer piriri. E isso também é um tanto enganador.

"O médico pode até investigar a covid-19, se por acaso os pais relatam que o filho viajou ou que teve contato com muita gente em uma reunião de família", exemplifica André Cotia. "Mas ele também pode ficar só de olho nos pulmões, percebendo aquela tosse seca, deixando de lado a suspeita de dengue. Muitas vezes não faz algo simples na consulta, que seria a prova do laço."

A prova do laço consiste em usar o esfigmomanômentro, o popular aparelho de medir a pressão, insuflando-o por 5 minutos no braço. Se for dengue, doença que atrapalha a coagulação do sangue, o aperto provocará mais de 10 petéquias por 2,5 centímetros quadrados de pele naquela região. Bem, petéquias é o nome bonito que os médicos dão para pontinhos vermelhos, os quais entregam pequenos sangramentos. Isso é importante para a triagem dos pacientes com suspeita de dengue. "Essa manifestação hemorrágica indica uma fragilidade dos vasos mais finos, os capilares, o que exige de nós muito mais atenção", explica o médico.

Sem isso para afastar a hipótese de dengue na criança que está tossindo — ou, melhor ainda, sem exames de sangue como o de hematócrito, avaliando a porcentagem de glóbulos vermelhos —, ela mais uma vez costuma voltar para casa. Em caso de dengue, porém, talvez o mais adequado fosse ficar sob observação no hospital.

Afinal, enquanto os pais e o próprio pediatra eventualmente esperam o resultado do teste de covid-19, algo que pode levar alguns dias conforme a cidade, a dengue é capaz evoluir para um quadro grave, o hemorrágico.

"Para evitar isso, o fundamental seria uma terapia para a dengue mais precoce. O que só é possível, óbvio, quando se tem o diagnóstico", diz o infectologista, que vem se reunindo com outros médicos onde trabalha para discutir casos assim, com sintomas atípicos que embaralham as possibilidades de diagnóstico.

O risco de uma criança pegar dengue ou covid

Na cidade de São Paulo, onde fica o Hospital Infantil Sabará em que o doutor André Cotia atua, a dengue não está tocando o terror como em outros lugares do Brasil. Em Campo Grande, no Mato Grosso do Sul, por exemplo, as notificações dessa infecção cresceram incríveis 77% só na semana passada. E bom lembrar que o danado do mosquito não tem preferência de idade: pica o primeiro que encontrar pela frente.

Apesar de o novo coronavírus ser o assunto do momento, não dá para a gente se esquecer que, entre 29 de dezembro de 2019 e 8 de dezembro de 2020, o Ministério da Saúde registrou 979.764 casos de dengue. É muita gente doente! Ok, talvez você me diga que, ao longo de 2019, esse número ultrapassou 1,5 milhão. Portanto, a dengue parece ter ficado mais sob controle nos últimos meses — ô, doce ilusão...

Saiba que no primeiro trimestre do ano passado, antes de o caos da pandemia se instalar, a quantidade de pessoas com dengue era um bocado maior do que no mesmo período de 2018. Sinal de que provavelmente o problema se agravou em vez de andar para trás. Ele só não foi notificado direito durante o isolamento social, daí a falsa impressão de estar em baixa. Repito: o Aedes aegyti pica do bebê ao vovó sem distinção.

Em relação à covid-19 nas alas pediátricas, de acordo com André Cotia, na maioria dos casos a criança não se infectou porque fez alguma atividade extracurricular na creche ou escola, o que algumas instituições ofereceram no final do ano passado, lembra-se? "Geralmente, esses locais tomam todos os cuidados, seguindo os protocolos, o que já não acontece nos eventos sociais frequentados pelos pais", ele nota.

O médico garante que, na hora da investigação, ele e seus colegas quase sempre descobrem que a meninada com covid-19 foi levada para festas de família, formaturas, jantares na casa de amigos do pai ou da mãe, encontros em restaurantes... Contaminado, mesmo que seja assintomático, o pequeno ajuda a espalhar a doença.

"De longe, na maioria das vezes, é o adulto da família que costuma passar o novo coronavírus para a criança", avisa André Cotia. "É nessa vida social dos adultos, que não respeita o distanciamento exigido pela pandemia, que mora o maior perigo e não, nas escolas", reforça.

Na prática, a dor de barriga durante a pandemia

Além de levar o seu filho à escola, mas não levá-lo para a festinha de casais amigos — onde provavelmente nem papai, nem mamãe deveriam estar —, fique esperto. Febre e intestino solto persistente, com direito a várias idas ao banheiro, podem ser sinais de covid-19, sim.

"O certo, então, é isolar essa criança até sair o resultado do teste para afastar a hipótese de infecção pelo novo coronavírus", orienta André Cotia. "O ideal mesmo seria até sair com ela de casa, se existem idosos e gente de outros grupos de risco sob o mesmo teto", diz.

Mudar de casa com a criança, porém, é quase sempre complicadíssimo. Um pouco mais fácil, se possível, é ter um banheiro só para ela e para o seu cuidador, o adulto que, se o menino ou a menina tiver menos de 12 anos, deverá permanecer ao seu lado em um quarto, completamente isolado do resto da família, fazendo-lhe companhia e dando a assistência necessária — usando máscaras e tomando todas as medidas de proteção individual, bem entendido.

"Vale ressaltar que, mesmo que a dor de barriga passe ou melhore depois de umas 72 horas, essa criança deverá continuar isolada por dez dias, se estiver de fato com a covid-19 ou, na dúvida, se não tiver feito o teste ", informa o infectologista.

É um isolamento maior, portanto, do que o exigido em outras infecções gastrointestinais, que pedem para a criança ficar quietinha, de molho e sem muita gente por perto, nas 48 após o fim da diarreia ou da náusea — não, não dá para circular por aí logo após o desaparecimento desses sintomas.

Parênteses: nesse meio-tempo, qualquer coisa diferente é motivo para procurar o pediatra, nem que seja por telemedicina. Dica que claramente também é importante nos pacientes com suspeita de dengue. Quando essa infecção piora, a criança fica prostrada de vez, sem forças para nada. Aí, é para correr atrás de ajuda. Mas, voltando, sempre que os sintomas de uma infecção desaparecem, é preciso dar um tempo antes de retomar a rotina, maior ou menor conforme a doença.

Infecções, como nos ensina essa pandemia infernal, pedem algum distanciamento para a gente não prejudicar o outro, lição preciosa de respeito para já ensinar aos pequenos. Por mais que seja chato — e é. Mas podemos dar o exemplo. Afinal, nós não somos mais crianças.

Fonte: UOL