Política

Após ataques à Argentina, Bolsonaro diz a embaixador que só há rivalidade no futebol





Presidente tem citado o país vizinho como exemplo de perigo da volta da esquerda ao poder

Dias após fazer ataques ao governo argentino, o presidente Jair Bolsonaro (sem partido) se reuniu com o embaixador do país vizinho no Brasil, Daniel Scioli, e disse que a rivalidade só existe no futebol.

"Torcemos muito pela Argentina. Conte com a nossa boa vontade. Rivalidade apenas no futebol", disse Bolsonaro. Ele participou de celebração do primeiro ano de Scioli como representante do governo de Alberto Fernández no Brasil.

Bolsonaro tem citado a Argentina em discursos sobre suposto perigo da volta da esquerda ao poder. No último dia 2, o mandatário afirmou que a elite argentina está deixando o país. "Daqui a pouco sai a classe média e depois os pobres, como na Venezuela", afirmou.

O encontro com Scioli não estava registrado na agenda de Bolsonaro e foi divulgado pelo embaixador, nas redes sociais. Em vídeo, o diplomata agradeceu pelo apoio do governo brasileiro em negociações como a com o FMI (Fundo Monetário Internacional).

Na mesma gravação, o presidente brasileiro fala em "fazer de tudo para que as crises sejam superadas". "O que mais interessa hoje: parabéns, felicidades, e nossos cumprimentos ao governo argentino", disse Bolsonaro a Scioli.

Bolsonaro também recebeu nesta terça o ex-prefeito do Rio de Janeiro e bispo licenciado na Igreja Universal do Reino de Deus (IURD) Marcelo Crivella (Republicanos). O presidente encaminhou em junho ao governo da África do Sul o nome de Crivella para o posto de embaixador do Brasil no país, no momento em que a Universal enfrenta problemas no continente africano, especialmente em Angola.

Na semana passada, o presidente citou a Argentina em discursos marcados pela retórica anticomunista. "Escolhas erradas, populista, demagógicas. Vendendo ilusão. Prometendo paraíso. Dividir riqueza e renda. Alguém conhece algum empresário socialista? Algum empreendedor comunista?", disse ele sobre os países governados pela esquerda.

No último dia 2, Bolsonaro também disse que a imprensa está "se acabando" na Argentina. "Em 2019 estive lá. Falei o que ia acontecer se a turma do Foro de São Paulo voltasse a comandar o país. Não deu outra", afirmou.

O presidente ainda criticou, no mesmo dia, políticas econômicas de Fernández. "Querem que se aumente carga tributária, que se tabele preços, como a Argentina fez com a carne. Não só faltou no mercado, como subiu de preço", disse.

Bolsonaro e Fernandéz chegaram a evitar diálogos nas primeiras semanas de gestão do argentino, em 2019. O peronista foi eleito para comandar o maior parceiro comercial do Brasil na América Latina.

À época, o líder brasileiro fez campanha para Mauricio Macri, presidente que buscava a reeleição. Após o pleito, Bolsonaro afirmou que não cumprimentaria Fernández e criticou o "retorno do kirchnerismo" ao país vizinho, o que identificou como uma guinada de rumo da Argentina "em direção à Venezuela".

Além do mais, Bolsonaro não compareceu à posse de Fernández em Buenos Aires e enviou o vice-presidente Hamilton Mourão como representante do Brasil.

nomeação de Scioli —ex-candidato a presidente e ex-governador de Buenos Aires— foi avaliada à época como um sinal de que o governo argentino considera prioritário manter relações amistosas com o Brasil, mesmo diante das diferenças ideológicas entre os dois presidentes.

Fonte: Folha de São Paulo