Política

CPI ouve hoje coronel citado por Dominghetti como elo com a Saúde





CPI da Covid ouve hoje, a partir das 9h, o tenente-coronel da reserva do Exército Marcelo Blanco, ex-assessor do Ministério da Saúde que foi citado em depoimentos anteriores como possível elo entre representantes da empresa Davati Medical Supply e a pasta do governo federal.

O militar será cobrado a explicar se, de fato, foi responsável por aproximar o policial militar mineiro Luiz Paulo Dominghetti, que se apresentava como vendedor vacinas da Davati, do ex-diretor de logística do ministério Roberto Dias. Na ocasião, a Davati tentava ofertar ao governo um suposto lote de 400 milhões de doses da AstraZeneca.

As conversas não avançaram e o acordo não foi concretizado. No entanto, as negociações que transcorreram entre os meses de fevereiro e março deste ano são permeadas por suspeitas de irregularidades.

Uma delas, denunciada por Dominghetti, diz respeito a um suposto pedido de propina de US$ 1 por dose (o valor da oferta original era de US$ 3,50 por unidade). A vantagem ilícita teria sido solicitada por Dias para que o contrato fosse assinado, de acordo com o relato do policial.

Durante a audiência de hoje, Blanco será indagado sobre a sua participação no jantar realizado em 25 de fevereiro deste ano no restaurante Vasto, em Brasília — momento no qual Dias teria cobrado a suposta propina a Dominghetti. Ambos relataram à CPI que o coronel estava presente na ocasião.

O colegiado também buscará obter explicações de Blanco sobre a sua relação prévia com Dominghetti e se ele exercia algum papel relevante em uma rede informal de intermediação para venda de vacinas.

Além de Dominghetti, que atuava em nome da Davati — a empresa nega que ele a representasse —, as negociações também passaram pelo lobby do reverendo Amilton Gomes de Paula, líder da entidade evangélica Senah (Secretaria Nacional de Assuntos Humanitários). Amilton negou conhecer Blanco à CPI.

Ontem, nos momentos finais da CPI da Covid, a Davati negou a acusação do reverendo de que a mudança na oferta de US$ 10 para US$ 11 por dose de vacina da AstraZeneca ao Ministério da Saúde teria partido do dono da companhia, Herman Cardenas. A declaração de Amilton foi dada também ontem durante depoimento à Comissão do Senado.

Outros atravessadores também foram mencionados em depoimentos à CPI, ainda que a AstraZeneca já tivesse avisado o governo para não contar com intermediários.

Blanco foi exonerado em janeiro do Ministério da Saúde, um mês antes das negociações entre o governo e a Davati. Na pasta, ele exerceu o posto de assessor e foi diretor substituto do departamento de logística — cargo que pertenceu a Dias até a publicação da reportagem do jornal Folha de S.Paulo, em 29 de junho, que revelou o suposto pedido de propina.

O pedido de convocação do coronel foi apresentado pelo senador Alessandro Vieira (Cidadania-SE). O parlamentar destacou que a oitiva pode ajudar a "esclarecer a notícia veiculada pelo jornal de que o governo Bolsonaro teria pedido propina de um dólar por dose de vacina por meio do diretor de logística do Ministério da Saúde, Roberto Ferreira Dias".

Para o vice-presidente da CPI, Randolfe Rodrigues (Rede-AP), Blanco é o "representante da parte do Ministério da Saúde" em relação às "negociatas", e o depoimento dele servirá para fazer um "link" entre pontos ainda não esclarecidos.

Em seu depoimento à CPI, em 7 de julho, Roberto Dias afirmou que o jantar do qual teriam participado Dominghetti e Blanco no restaurante Vasto não passou de um evento casual. Ao continuar a ser questionado pelos senadores, porém, admitiu que Blanco deveria saber que estava no local devido a conversas mantidas entre os dois ao longo do dia.

Dias negou que tenha solicitado propina e que tenha negociado vacinas fora do âmbito formal do ministério. No entanto, reconheceu ter recebido Dominghetti no dia seguinte ao encontro, em 26 de fevereiro.

Segundo o ex-diretor de logística, o policial não conseguiu comprovar que a Davati possuía autorização da AstraZeneca para negociar vacinas em nome da farmacêutica. Por esse motivo, as negociações teriam sido imediatamente interrompidas.

Cristiano Carvalho, representante oficial da Davati, disse, também em depoimento à CPI da Covid, que foi avisado do suposto pedido de propina, embora não tenha presenciado o eventual ato.

Carvalho afirmou ainda que o acréscimo, que chamou de "comissionamento", seria destinado ao "grupo" ligado ao coronel Blanco.

"A informação que veio a mim, vale ressaltar isso, não foi o nome propina. Ele [Dominghetti] usou comissionamento. Ele se referiu a esse comissionamento sendo do grupo do tenente-coronel Blanco e da pessoa que o tinha apresentado ao Blanco, que é de nome Odilon", disse.

"Odilon" seria Guilherme Filho Odilon, um interlocutor entre Dominghetti e o coronel Blanco.

Servidores públicos não podem receber comissionamento ou propina em troca de negócios.

Fonte: UOL